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Artigo

A Realidade do Inferno

John MacArthur 21 de Agosto de 2014 - Teologia

De acordo com pesquisas recentes, 81% dos americanos adultos acreditam no céu, e 80% esperam ir para lá quando morrerem. Em comparação, cerca de 61% acredita no inferno, mas menos de 1% pensa que é provável que ele irá para lá. Em outras palavras, uma pequena maioria de americanos ainda acredita que o inferno existe, mas o medo genuíno do inferno é quase inexistente.

Mesmo os evangélicos mais conservadores não parecem mais levar o inferno muito a sério. Durante décadas, muitos evangélicos têm minimizado verdades bíblicas inconvenientes, negligenciando qualquer tema que pareça exigir sombria reflexão. Doutrinas como a depravação humana, a ira divina, a excessiva pecaminosidade e a realidade do julgamento eterno desapareceram da mensagem evangélica.

A tendência não escapou da atenção de todos. Trinta anos atrás, por exemplo, Martin Marty, historiador religioso, professor na Escola de Divindade da Universidade de Chicago e crítico de tudo o que é evangélico, discursou sobre o tema imortalidade em sua palestra na Escola de Divindade de Harvard. O título de sua mensagem foi “O Inferno Desapareceu. Ninguém Notou”. A pesquisa de Marty não conseguiu encontrar nem sequer um artigo acadêmico que lidasse com o tema do inferno em nenhuma publicação teológica importante do último século. Mencionando a escassez de atenção sendo dada a um tópico tão amplo, Marty sugeriu que se os evangélicos realmente levassem a sério o que a Escritura diz a respeito da punição eterna, alguém de renome deveria notar.

Quase ninguém notou. Dezoito anos mais tarde, o jornal The Los Angeles Times publicou um artigo de primeira página intitulado “Cessar Fogo e Enxofre”, observando que muitos líderes “na moda” de igrejas evangélicas estavam deliberadamente omitindo o tema da retribuição divina:

Em igrejas por toda a América, o inferno está sendo congelado, visto que os cleros ficam cada vez mais hesitantes em pregar a respeito [...] de um enredo com o qual aqueles que frequentam igrejas não se identificam mais. [De acordo com] Harvey Cox Jr., um célebre escritor, historiador religioso e professor na Escola de Divindade de Harvard, “Você pode ir a um monte de igrejas, semana após semana, e você ficaria impressionado se ouvisse sequer uma menção sobre o inferno”.

O fato de o inferno sair da moda indica como porções-chave da teologia cristã foram influenciadas por uma sociedade secular que enfatiza o individualismo acima da autoridade, e a psique humana acima de absolutos morais. A ascensão da psicologia, da filosofia do existencialismo e da cultura consumista jogou baldes de água no inferno.

O artigo descreveu um pastor evangélico que disse que acredita no inferno, mas (de acordo com o Times) “você nunca saberia disso ouvindo-o pregar [...]. Ele nunca menciona o tópico; seu rebanho mostra pouco interesse no assunto”. Ao ser perguntando por que a doutrina do inferno desapareceu, esse pastor respondeu: “Ela não é mais atraente o bastante”.

O artigo também citou um renomado professor de seminário que, mais ou menos, concordou. O inferno, ele disse, é “simplesmente negativo demais [...]. As igrejas estão sob enorme pressão de serem voltadas para o consumidor. As igrejas de hoje em dia sentem a necessidade de serem atraentes ao invés de exigentes”.

O artigo fechou com uma citação de Martin Marty, quase duas décadas após sua famosa palestra sobre o assunto. Ele concordava que as preocupações orientadas pelo mercado são a principal razão pela qual o inferno está sendo eliminado da mensagem evangélica:

Uma vez que o evangelismo pop passou pela análise de mercado, o inferno foi simplesmente deixado de lado. Quando igrejas vão de porta em porta e conduzem uma análise de mercado [...] elas ouvem: “Quero estacionamentos mais espaçosos. Quero guitarras nos cultos. Quero que meu carro seja encerado enquanto estou na igreja”.

Anos de indiferença finalmente abriram caminho para hostilidade aberta. Na primeira década do novo milênio, certas figuras proeminentes na “igreja emergente” declararam guerra contra a doutrina bíblica do inferno. O ponto alto pareceu ser poucos anos atrás com a publicação do best-seller de Rob Bell O Amor Vence. Bell argumentou que é absurdo pensar que um Deus amoroso algum dia condenaria alguém à punição eterna. Ele retratou o amor de Deus como uma força que entra em conflito e, no fim das contas, elimina as exigências da justiça. No enredo que Bell prevê, Deus não requer qualquer pagamento ou punição pelo pecado. A resposta divina ao mal é sempre reparadora, nunca punitiva. Além disso, o salário do pecado é moderado, temporário e reservado apenas para vilões gritantemente malévolos — assassinos em massa, estupradores de crianças, tiranos que engendram genocídios e (supõe-se) cristãos que contam aos incrédulos que eles devem temer a Deus. Quando tudo isso acabar, todos estarão juntos no paraíso.

Em tal sistema, a justiça de Deus é comprometida, o arrependimento é opcional, a expiação é desnecessária e a verdade da Palavra de Deus é anulada. Em outras palavras, não resta mais nada do cristianismo bíblico. Uma vez que qualquer um estabelece suavizar ou domar as difíceis verdades da Escritura, é para onde o processo inevitavelmente conduz.

Apenas algumas poucas vozes de liderança no movimento evangélico têm pressionado corajosamente para uma abordagem mais ortodoxa da doutrina do inferno. Elas parecem ser ultrapassadas em número por aqueles que pensam que o desaparecimento do inferno é um desenvolvimento positivo.

Alguns propuseram maneiras alternativas de falar sobre o pecado e o julgamento com uma terminologia mais gentil, suave, refinada e mais socialmente aceitável do que a que a Escritura usa. O pecado é considerado errado não por ser uma ofensa contra a justiça de Deus, mas por causa do dano que ele causa aos outros. O inferno é descrito não como um lugar de eterna punição, mas simplesmente como uma esfera de existência à parte de Deus. Na escatologia reinterpretada dos evangélicos da moda, ninguém jamais é “enviado” ao inferno; os pecadores, na verdade, escolhem passar a eternidade à parte de Deus — e o “inferno” que eles sofrem é meramente uma abundância daquilo que eles mais amaram e desejaram. O inferno é necessário apenas porque Deus é relutante em sobrepor-se ao livre-arbítrio das pessoas. Portanto, com uma aquiescência mais ou menos benigna ele, em última análise, se submete à escolha do pecador. A justa indignação de Deus não tem lugar significativo em tal cenário.

É um sério equívoco imaginar que nós melhoramos a Escritura ou intensificamos sua eficácia ao cegarmos suas pontas afiadas. A Escritura é uma espada, não um cotonete, e ela precisa ser totalmente desembainhada antes de poder ser posta ao uso a que se destina. “A palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12). O evangelho é para ser uma afronta ao orgulho carnal, ofensivo às sensibilidades humanas, tolice aos olhos da sabedoria mundana e contrário a todos os julgamentos carnais.

Nenhum ensino cristão exemplifica essas características mais poderosamente do que a doutrina do inferno. Trata-se de uma verdade apavorante. Nós corretamente recuamos ao pensar sobre ela. A doutrina do inferno, portanto, permanece como uma advertência e um lembrete da realidade repugnante que o pecado é. Nenhuma pessoa razoável ou piedosa se deleita na realidade da condenação eterna. O próprio Deus diz: “Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não tenho prazer na morte do perverso” (Ez 33.11).

Ainda assim, a severidade da ira de Deus e as angústias do inferno são proeminentes na Escritura. O Novo Testamento fala mais vividamente e mais frequentemente sobre o inferno do que o Antigo Testamento. De fato, o próprio Jesus tinha mais a dizer a respeito do assunto do que qualquer outro profeta ou autor bíblico. Longe de suavizar as verdades que parecem constranger tantos evangélicos hoje em dia, Jesus disse:

Não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer. (Lc 12.4-5)

Se a tua mão ou o teu pé te faz tropeçar, corta-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno. Se um dos teus olhos te faz tropeçar, arranca-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida com um só dos teus olhos do que, tendo dois, seres lançado no inferno de fogo. (Mt 18.8-9)

Não fazemos nenhum favor a ninguém quando minimizamos a verdade da ira de Deus ou negligenciamos mencionar a severidade do seu julgamento. Nós certamente não eliminamos a ameaça do inferno ao nos recusarmos a falar ou pensar sobre isso. Se nós verdadeiramente cremos no que a Bíblia ensina sobre o destino eterno dos incrédulos, de maneira alguma é “amoroso” permanecer em silêncio e recusar-se a soar o alarme apropriado.

Quais, afinal, são as boas novas que nós proclamamos no evangelho? Não é um anúncio de que ninguém precisa temer a Deus ou se atormentar com a possibilidade do inferno. Na verdade, as notícias não seriam nada boas se Deus meramente tivesse a intenção de se render à vontade obstinada do homem e renunciasse às exigências de sua perfeita justiça.

As boas novas são ainda melhores do que a maioria dos crentes entende: Deus fez um caminho para que a sua justiça e o seu amor fossem plenamente reconciliados. Em sua encarnação, Cristo cumpriu toda a justiça (satisfazendo, não anulando, as exigências de sua lei). Em sua morte na cruz, ele pagou o preço do pecado do seu povo integralmente (garantindo o triunfo da perfeita justiça). E em sua ressurreição dos mortos, ele colocou um poderoso ponto de exclamação em sua perfeita e consumada obra de expiação (selando, assim, a promessa de justificação para sempre para aqueles que confiam nele como Senhor e Salvador).

Essa é a mensagem que devemos declarar a uma cultura mundana, completamente desprovida de qualquer temor real a Deus. Nós não podemos fazer isso de forma fiel ou efetivamente se, desde o princípio, omitimos a dura verdade que a Escritura declara a respeito do “furor da ira do Deus Todo-Poderoso” (Ap 19.15).

Tradução: Alan Cristie

Revisão: Renata Cavalcanti

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