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Artigo

Feminismo: o engano da cultura da vulgaridade

Carolyn Macculey 18 de Fevereiro de 2019 - Mulheres

O trecho abaixo foi retirado com permissão do livro Feminilidade Radical, de Carolyn McCulley, Editora Fiel.

Vários anos atrás, a escritora Ariel Levy — que nasceu em 1974 em meio ao feminismo da segunda onda e cresceu sob sua lógica — começou a notar “algo estranho”. Em todo lugar aonde ia, parecia que a pornografia tinha se tornado normal, infestando a mídia convencional televisiva, as revistas, a moda e o entretenimento. A “vulgaridade” tinha se tornado sinônimo de “liberdade” — uma tendência que Levy achou muito confusa:

Algumas coisas estranhas estavam acontecendo em minha vida social também. Pessoas que eu conhecia (mulheres) gostavam de ir a clubes de strip-tease (com strippers mulheres). Era sensual e divertido, elas explicavam; era libertador e rebelde. Minha melhor amiga de faculdade, que costumava ir às marchas Take Back the Night no campus (marchas feministas contra violência sexual), tinha sido cativada pelas estrelas pornográficas. Apenas trinta anos atrás (o que mal é a minha idade), nossas mães estavam queimando sutiãs e fazendo manifestações contra a Playboy e, de repente, estamos aqui colocando implantes e vestindo o logotipo do coelhinho como símbolo de nossa libertação. Como pode a cultura ter mudado tão drasticamente em um período tão curto de tempo?

O engano da cultura da vulgaridade

Então Levy decidiu pesquisar essa tendência, o que incluiu passar três dias com o time de filmagem de Girls Gone Wild. Em poucas palavras, os câmeras da GGW visitavam festas como o Mardi Gras[i] ou destinos de férias, onde eles encorajavam jovens bêbadas a se exporem e a participarem de cenas sexuais. As mulheres que participavam e os homens que as incentivavam recebiam camisetas do GGW ou bonés. Isso é tudo o que recebiam — enquanto o fundador de GGW, Joe Francis, ganhava milhões com essa filmagem. Em um artigo, Levy cita Mia Leist, vinte e cinco anos de idade, diretora de viagens de GGW, dizendo: “as pessoas se exibem[ii] por causa da marca”[iii].

Embora homens heterossexuais sejam a audiência óbvia de GGW, Levy diz que já não faz mais sentido culpar apenas os homens. As mulheres não estão apenas diante das câmeras, elas também estão por trás das cenas, tomando decisões e ganhando dinheiro:

A revista Playboy é um exemplo disso. A imagem da Playboy tem tudo a ver com seu fundador, o septuagenário, vestido de pijamas e sedutor de mulheres Hugh Hefner, e o surreal mundo das celebridades, múltiplas “namoradas” e incessantes festas do biquíni que ele promove ao seu redor. Mas, na verdade, a Playboy é uma companhia dirigida principalmente por mulheres. A filha de Hefner, Christie, é a presidente e a chefe administradora executiva da Playboy Enterprises. A diretora financeira é uma mãe de meia-idade chamada Linda Harvard. A Fundação Playboy (que apoiou a ERA, o direito ao aborto e outras causas progressistas) é liderada por Cleo Wilson, uma afroamericana, ex-ativista pelos direitos civis. Uma mulher chamada Marilyn Grabowski produz mais da metade das fotos publicadas na revista [...]. O que essas mulheres estão fazendo a nós mesmas não é uma espécie de triunfo; é deprimente.

 

Após passar três dias com o time de GGW, Levy estava mais confusa do que nunca.

“Meu argumento é que as mulheres se esqueceram de que o poder sexual é apenas uma versão muito limitada de poder, e que essa espécie de férias e esse exibicionismo “fio-dental e implantes” são apenas uma versão muito limitada da sexualidade”, ela escreve.

A propaganda desse tipo de sexualidade feminina começa bem cedo. Wendy Shalit, autora de Girls Gone Mild: Young Women Reclaim Self-Respect and Find It’s Not Bad to Be Good [Garotas Discretas: Jovens reivindicam respeito próprio e descobrem que não é ruim ser boa], diz que mesmo meninas de seis anos são afetadas pela sexualidade intencional das bonecas Bratz, das roupas íntimas muito  decotadas da Hello Kitty e da vestimenta insinuante do departamento infantil feminino. Como ela escreve, esse tipo de sexualização precoce de meninas é assustador mesmo para os seus defensores:

Por todo o espectro político, muitos têm expressado consternação com o fato de que o legendário astro pornô Ron Jeremy tinha sido rodeado por famílias na Disneylândia que queriam tirar fotos com ele, ou que garotas de treze anos tenham dito à estrela pornô Jenna Jameson, num evento de autógrafos de livros, que elas a viam como um “ícone”. Conta-se que ambos Jeremy e Jameson ficaram chocados em saber que tinham fãs tão jovens.

Mas se não queremos que esse tipo de coisa aconteça, então parece que precisamos de novos modelos. E precisamos logo. Para que as meninas tenham boas opções e esperança genuína, a “garota selvagem” ou “garota má” não podem ser suas únicas opções de empoderamento.

Infelizmente, muitas jovens sentem que não têm outra opção em seus relacionamentos. Donna Freitas, professora na Universidade de Boston e autora de Sex and the Soul: Juggling Sexuality, Spirituality, Romance and Religion on America’s College Campuses [Sexo e Alma: Equilibrando Sexualidade, Espiritualidade, Romance e Religião nos Campus Universitários da América], diz que muitas de suas estudantes estão infelizes com seu próprio comportamento no que se refere ao namoro, romance e sexo. Na sua pesquisa nacional em uma faculdade de mais de dois mil e quinhentos alunos, Freitas descobriu que 41 por cento daquelas que relataram estar “ficando” (uma gama de atividades sexuais íntimas não vinculadas a qualquer tipo de relacionamento com compromisso) estavam “profundamente infelizes com seu comportamento”. Os 22 por cento das participantes que escolheram descrever uma experiência de “ficar” (a questão era opcional) usaram palavras como “suja”, “usada”, “arrependida”, “vazia”, “miserável”, “enojada”, “envergonhada”, “enganada” e “abusada” em suas respostas. Um adicional de 23 por cento expressou ambivalência sobre o “ficar”, e os 36 por cento restantes estavam mais ou menos “bem” com isso, ela relata.

Em sua matéria, “Espiritualidade e Sexualidade na Cultura Jovem Estadunidense”, Freitas indicou o livro de Wendy Shalit, A Return to Modesty [Um retorno à Modéstia], realmente esperando que suas estudantes o rejeitassem. Ao invés disso, ela relatou que elas estão “fascinadas” com a descrição de Shalit de modéstia como uma virtude, especialmente no contexto da fé religiosa.

O engano da cultura da vulgaridade

A turma ficou igualmente atraída por alguns manuais evangélicos sobre namoro, como “Eu Disse Adeus ao Namoro”, de Joshua Harris, e “Real Sex” [Sexo Real], de Lauren Winner, que pedi que lessem. Elas pareciam chocadas com o fato de que em algum lugar nos Estados Unidos havia comunidades inteiras de pessoas de sua idade que realmente estavam “se guardando” até o casamento, que se engajavam em namoros fora de moda, com flores, e jantar, e talvez um beijo de boa-noite. Elas reagiram como se esses autores descrevessem uma maravilhosa terra encantada. “É mais fácil apenas fazer sexo com alguém do que pedir para sair num encontro de verdade”, disse uma estudante, num tom de brincadeira.

Essa atitude descompromissada para com o sexo vem com um preço alto. Em março de 2008, os Centros de Controle de Doenças publicaram um estudo que chocou muitas pessoas: uma estimativa de uma em cada quatro (26 por cento) jovens mulheres entre a idade de catorze e dezenove anos nos Estados Unidos — ou 3,2 milhões de garotas adolescentes — está infectada com pelo menos uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns (vírus do papiloma humano [HPV], clamídia, vírus do herpes simples e tricomoníase). O estudo descobriu também que meninas afro-americanas são mais seriamente afetadas. Quase metade das jovens afro-americanas (48 por cento) foram contaminadas com uma doença sexualmente transmissível, comparado aos 20 por cento das jovens brancas.

A geração do “ficar” não apenas tem sua saúde sexual e sua fertilidade futura sob risco, como também estão apostando num artigo passageiro: a atratividade sexual tal como definida pela indústria pornográfica. As líderes do feminismo da terceira onda estão agora em seus trinta, quase quarenta anos de idade, e essas jovens devem logo apreciar o conselho da geração a frente delas:

Numa conferência na primavera de 2008 na University of Baltimore School of Law, acadêmicos, ativistas e estudantes de todo o país se reuniram para conversar sobre feminismo e mudança na sociedade. Houve alguma discussão sobre o que distingue as seguidoras da segunda onda daquelas da terceira. Quando uma jovem formanda em estudos femininos perguntou qual era o problema em se valer de sua sexualidade para ganhar poder sobre os homens, uma de suas “veteranas” a lembrou de que tal poder era, na melhor das hipóteses, temporário, e que a educação e um bom emprego poderiam oferecer um poder mais duradouro.



[i] N. da T.: festa popular estadunidense, em que é comum mulheres ganharem colares para exibir os seios e outras partes íntimas.

[ii] N. da T.: no original em inglês, o verbo é “to flash”, que é usado informalmente significando “exibir partes íntimas do corpo”.

[iii] Ariel Levy, “Dispatches from Girls Gone Wild”, Slate.com, 22 mar. 2004, http://www.slate. com/id/2097485/entry/2097496/.

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