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Artigo

Uma conversa sobre atração homossexual, solteirice e a igreja (Parte 2)

Sam Allberry 25 de Dezembro de 2017 - Família

 (Leia a Parte 1)

Nota do editor: O que segue é uma conversa por e-mail entre Sam Allberry, Rosaria Butterfield e Christopher Yuan, com perguntas sobre atração homossexual, solteirice e a igreja.

* * *

3) Como a legalização do casamento homossexual tornou mais difícil pastorear solteiros em geral?

Allberry: A legalização reforçou ainda mais a ideia de que uma vida sem satisfação sexual não vale a pena ser vivida. Muito da retórica por trás da defesa do casamento homossexual tinha a ver com o quão injusto é que algumas pessoas não possam chamar de “casamento” as suas formas escolhidas de intimidade e como isso é um modo intolerável de eles viverem. Portanto, a legalização do casamento homossexual aumentou ainda mais a distância entre a forma como nossa cultura entende o sexo e o casamento — em particular, a sua relação com o desenvolvimento humano e a cosmovisão bíblica. Agora, os solteiros são levados a se sentirem ainda mais estranhos em nossa cultura, pelo menos se eles permanecem celibatários. Infelizmente, isso ressalta a ideia predominante de que a única intimidade real que importa é, finalmente, a sexual.

Yuan: A legalização do casamento homossexual tornou mais difícil o pastoreio de solteiros, na medida em que normaliza, romantiza e até mesmo celebra algo que Deus não trata assim, a saber, as relações entre pessoas do mesmo sexo. Tendo dito isso, creio em um Deus que é completa e absolutamente soberano sobre todas as coisas. O que Deus diz em sua Palavra é verdadeiro, especificamente em Gênesis 50.20: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem”. Mesmo no pecado, rebelião e queda da humanidade, Deus ainda é soberano. Então, embora o mundo normalize, romantize e mesmo celebre algo que Deus não o faz, as pessoas estão mais dispostas a falar sobre as suas próprias lutas pessoais contra o pecado sexual. E isso abre uma porta.

De que maneira? No sentido de que os crentes não apenas falem sobre a sexualidade no púlpito de forma pastoral e compassiva (ou seja, não apenas tratando disso meramente como uma questão ética, porém, de modo mais importante, como uma oportunidade pastoral) e uns com os outros cheios de graça e de verdade (João 1.14), mas também falem sobre suas próprias lutas, seja contra a pornografia, seja contra a cobiça por alguém que não seja o seu cônjuge, seja uma tendência à idolatria relacional (o que eu chamo de codependência) e/ou experiências de atrações homossexuais. Esta é uma oportunidade para a igreja falar sobre esse assunto e poder começar a orar uns pelos outros, se responsabilizando mutuamente e, portanto, buscando uma vida santa em comunidade. Creio que o melhor lugar para tratar de questões sobre sexualidade não é no mundo, mas no Corpo de Cristo. A igreja deve ser o lugar mais seguro do mundo. Mas, estamos seguros?

A legalização do casamento homossexual elevou o casamento como um dos “maiores ideais do amor”. Isso é exatamente o que você encontrará no último parágrafo da opinião majoritária escrita pelo juiz da Suprema Corte, Anthony Kennedy. Rosaria e eu escrevemos uma resposta chamada “Algo maior do que o casamento”, na qual argumentamos que o casamento não é o mais elevado ideal de amor. Deus o é. Precisamos ajudar as pessoas a não idolatrar a boa dádiva do casamento, mas adorar somente a Deus. A principal fonte de nosso contentamento e alegria não deve estar em outra pessoa, como nosso cônjuge ou namorado(a). Deve estar somente em Jesus Cristo.

Butterfield: Sim, porque a legalização do casamento homossexual tornou o conceito de orientação sexual em um direito civil. A orientação sexual começou como uma invenção categórica do século XIX que rejeitou a ideia de que as pessoas são feitas à imagem de Deus e, em vez disso, categorizou as pessoas com base em seus diferentes objetos de desejo sexual. Isso é importante porque os cristãos precisam mortificar o pecado individual e, ao mesmo tempo, permanecer conscientes de como o pecado está enraizado na cultura.

No século XX, a orientação sexual se tornou um ídolo da autonomia sexual. Neste século, ela se tornou um direito civil. O evangelho está em um curso de colisão com a orientação sexual como uma categoria da personalidade; é exatamente por isso que a categoria “cristianismo gay”, celibatário ou não, é antibíblica e inútil. Não há como “buscar ser mais agradável” neste contexto sem falsificar uma ética sexual bíblica.

Mas o amor de Cristo que a igreja deve ensinar hoje é o amor verdadeiro — amor expiatório, o amor sangrento de Jesus, que conhece melhor e ama mais o seu povo. Devemos proclamar que o arrependimento do pecado é o limiar para Deus; que o arrependimento do pecado traz glória a Deus; que o arrependimento do pecado refrigera e restaura o crente.

A cultura do casamento homossexual torna a orientação sexual uma cláusula de desculpa para o pecado, um convite para ignorar o sangue de Cristo. Para enfrentar isso, a igreja deve mostrar que não há vergonha no arrependimento, e que, antes, uma vida de arrependimento e humilde submissão a Deus é, de fato, a melhor barreira para a vergonha, pois todos os que se arrependem e creem recebem vestes de justiça, permanecem no sangue de Cristo e são chamados filhos e filhas do Rei. Isso é verdade mesmo quando lutamos contra o pecado. A marca de nós crentes é a união com Cristo enquanto lutamos contra o pecado, incluindo o pecado que nunca escolhemos, a princípio.

4) Em seu discipulado, você encoraja os cristãos que vivem com forte atração homossexual a buscarem o casamento (definido biblicamente)? Caso sim, o que você diz? O quanto você incentiva, etc.?

Butterfield: Não. Os cristãos são chamados a valorizar o casamento bíblico, pois ele reflete Cristo e a igreja. O casamento bíblico existe pelo desígnio de Deus, mas Deus não designou todos os cristãos para o casamento. E o casamento bíblico não deve ser visto como um fim em si mesmo. Manipular as pessoas para um chamado que Deus não deu é cruel, esmagador e perigoso.

Devemos buscar a santidade. Tendo dito tudo isso, se estou discipulando uma mulher que luta contra a AH e deseja se casar biblicamente, então precisamos começar com disciplinas cristãs que a preparem para ser uma esposa bíblica. Nenhum cristão deve começar a buscar um cônjuge bíblico olhando para fora, para alguém por vir. Você deve olhar primeiro para dentro; deve virar as páginas do seu coração com a Bíblia em mãos. Para muitas pessoas que têm AH, o amor sexual que Deus celebra no casamento bíblico cresce a partir de um forte vínculo bíblico com seu cônjuge, por meio de uma amizade confiável e profunda, pelo reconhecimento de que marido e mulher são parceiros de oração para a vida, pelo desejo de servir, agradar e ajudar seu marido, através de uma disposição confiável para compartilhar, através de uma vulnerabilidade aberta. Se os cristãos solteiros que lutam contra a AH são incentivados (manipulados, na realidade) para o casamento bíblico pela igreja, a igreja precisa considerar o que isso implica. Essa manipulação implica que a igreja vê a solteirice como uma cidadania evangélica de menor valor. E se a solteirice é uma cidadania evangélica de menor valor, então estamos servindo um Rei de menor valor. Deus nos guarde disso.

Yuan: Ótima pergunta. Quando estava ensinando no Moody Bible Institute, muitas vezes discipulei jovens estudantes do sexo masculino. Havia alguns que experimentavam atrações homossexuais e havia alguns que não. Minha resposta seria essencialmente a mesma: encorajo-os a buscar a santidade. Em meu primeiro livro, introduzi um conceito chamado de sexualidade santa, que estou desenvolvendo no meu próximo livro, intitulado Holy Sexuality and the Gospel: Re-centering the Sexual Identity Conversation around Biblical, Systematic, and Practical Theology [Sexualidade Santa e o Evangelho: Recentralizando o Debate sobre a Identidade Sexual em torno da Teologia Bíblica, Sistemática e Prática.

A sexualidade santa diz respeito a como os cristãos devem viver o cotidiano à luz de suas atrações sexuais. Escolhi esse termo para justapor e, em última instância, auxiliar-nos a afastar a orientação heterossexual/homossexual como paradigma de identidade pessoal. A Escritura é clara quanto à existência de apenas duas opções sobre como viver o cotidiano à luz de nossas atrações sexuais. A primeira opção, se você é casado (definido biblicamente), é fidelidade total ao seu cônjuge. A segunda opção, se você é solteiro, é fidelidade total através da castidade ou abstinência sexual. Portanto, a sexualidade santa é a fidelidade no casamento ou a castidade na solteirice.

Quando os alunos perguntam: “Como posso saber se eu sou chamado para ser casado ou solteiro?”, eu lhes digo que não posso prever o futuro; contudo, posso ver o presente. E seja qual for a situação em que estejam agora (casados ??ou solteiros), que vivam tudo para a glória de Deus (1Co 7.17-24). Sei que os pastores muitas vezes lamentam que os jovens em suas congregações estão se esquivando da responsabilidade e compromisso e não querem se casar. Acho que essa é uma preocupação. Porém, o problema é que esses homens são espiritualmente imaturos. Eles não precisam ser estimulados a buscarem o casamento. Eles precisam ser estimulados a buscarem a Cristo e se colocarem no caminho da graça de Deus através dos meios da graça de Deus. O melhor modo de buscar o casamento é crescer na graça de Deus.

A partir da minha experiência na igreja e em instituições cristãs de ensino superior, o problema não é que as pessoas estejam evitando o casamento. O problema é que elas quase idolatram o casamento (daí o Moody Bridal Institute [Instituto Nupcial Moody]). Conhecemos todos os clichês: “anel de primavera”#1, “grau de senhora”#2, etc. Mas, como povo da nova aliança, sabemos que o casamento não é “melhor” do que a solteirice.

Novamente, desejo apontar as pessoas para a excelente obra de Barry Danylak, A Biblical Theology of Singleness [Uma Teologia Bíblica da Solteirice]. O casamento entre um marido e uma mulher é temporário (Mateus 22.29-30). É apenas uma sombra/mistério da realidade eterna do casamento escatológico entre Cristo e a Igreja (Efésios 5.32). E quando a realidade escatológica do nosso casamento final for cumprida, não haverá mais razão para a sombra (do casamento entre marido e mulher). Portanto, a solteirice não é um estado temporário antes do casamento. O casamento (entre um marido e uma mulher) é um estado temporário antes da eternidade.

Também digo a jovens homens solteiros que estou discipulando que um chamado para a solteirice não significa que o chamado seja vitalício ou imutável. O chamado de Deus pode mudar ao longo do tempo. Ele pode chamar alguém para fazer algo durante um momento de sua vida e depois Deus pode chamar essa pessoa para algo diferente. Devemos estar abertos e dispostos. Se Deus — que é soberano — não forneceu uma auxiliadora, então viva plenamente no chamado de um homem solteiro, de forma alegre, consistente e persistente colocando-se no caminho da graça de Deus. Se Deus providenciou alguém que poderia potencialmente ser uma auxiliadora, inicie esse relacionamento com cautela e em comunidade — assegurando-se de buscar a sabedoria de amigos, mentores, pastores e pais que sejam cristãos firmes.

#1 “Anel de primavera” é uma frase associada com jovens cristãos solteiros que buscam ansiosamente um cônjuge em universidades cristãs. O objetivo especialmente das jovens mulheres é ganhar um anel de noivado ao final da primavera, razão do uso do termo – N.R.

#2 “Grau de senhora” é um termo usado para descrever a situação de uma jovem que vai à universidade com a intenção de encontrar um esposo – N.R.

 

Tradução: Camila Rebeca Teixeira

Revisão: André Aloísio Oliveira da Silva

Original: Singleness, Same-Sex Attraction, and the Church: A Conversation with Sam Allberry, Rosaria Butterfield, and Christopher Yuan.

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Autor Sam Allberry

Sam Allberry é editor do The Gospel Coalition, um dos pastores da Igreja Anglicana St Mary, Maidenhead, Reino Unido. Ele também é autor do livro...



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