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Artigo

Devemos cantar somente os Salmos em nossos cultos?

Robert Letham 09 de Janeiro de 2017 - Práticas da Igreja

Meu argumento é que os Salmos devem ser a espinha dorsal do elemento de canto da adoração eclesiástica.

Os Salmos são a palavra de Deus para o homem e a palavra do homem em resposta. Cumprido em Cristo, o próprio Cristo baseia sua mensagem de graça neles (Lucas 24.44-49). Os Salmos são abrangentes em conteúdo e imensamente poderosos. Quase sempre escolho pelo menos um Salmo para cada culto que planejo.

Mas, o que dizer do argumento que o elemento de canto da adoração eclesiástica deveria consistir exclusivamente de salmos?

Esse argumento é baseado em certa aplicação do princípio regulador da Escritura, no qual o princípio é tomado à risca de que somente o que é explicitamente ordenado na Escritura é permitido. Visto que não há ordem explicita para cantar músicas não-inspiradas, o pensamento continua, adoração eclesiástica não deve inclui-las. Como essa posição dirige a distinção entre os Salmos e as duas outras formas de música na ordem de Paulo: “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais” (Efésios 5.19)? Essas três palavras são entendidas quer como uma referência às três partes do saltério, ou como uma figura de linguagem onde duas ou mais expressões são usadas para significar uma única coisa.

Entretanto, onde na Escritura achamos um requerimento explícito que as igrejas devem fazer somente o que é explicitamente ordenado? Se a Escritura requer suporte explícito para práticas de adoração, devemos assumir que isso propõe o princípio explicitamente. Onde na Escritura a igreja é explicitamente comandada a cantar o livro dos Salmos e somente os Salmos? O que dizer das passagens com hinos em ambos Antigo e Novo Testamento? Por que as doxologias e outras expressões de louvor são encontradas na Escritura à parte do livro de Salmos?

Meu argumento é que o princípio de exclusividade dos salmos simplesmente não é encontrado na Escritura e que o argumento em seu favor também repousa sobre uma má interpretação do princípio regulador. Vamos examinar esse segundo ponto primeiro.

Esclarecendo o princípio regulador

Para esclarecer o que o princípio regulador quer dizer e o que não quer dizer, vamos considerar o argumento clássico da Assembleia de Westminster para ele, como também o contexto histórico dessa declaração.

A visão da Assembleia de Westminster do princípio regulador.

O princípio regulador de adoração é encontrado em CFW 21.1. A porção com relevância diz:

Mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras.

Isso deve ser avaliado nos termos da doutrina da Escritura da Assembleia. Em 1.6, a Confissão declara que todo o conselho de Deus ou é dito explicitamente nas Escritura ou pode ser clara e logicamente deduzido dela. O princípio regulador, como expressado na Assembleia, não reduz a Bíblia a um comando manual por meio do qual a adoração deve ser moldada exclusivamente por ordens explicitas.

O contexto histórico do princípio regulador

O plano de fundo histórico na Inglaterra impactou significativamente a Assembleia e seu apego pelo princípio regulador. Regulações draconianas governavam a adoração na igreja da Inglaterra. A legislação parlamentar especificava que todos os ministros estavam obrigados a realizar os cultos de acordo com o que  estava escrito no Livro de Oração Comum. Se um ministro era declarado como desobediente por um tribunal, ele perderia todos os benefícios espirituais e ficaria preso por seis meses. Em uma segunda ofensa, um ano de prisão era a penalidade. Em uma terceira ofensa, ele sofreria prisão perpétua. Se qualquer pessoa escrevesse ou falasse contra o Livro, em uma terceira ofensa ela perderia todos os bens e sofreria prisão perpétua.

Vista nesse contexto, a CFW 21.1 tem mais caráter de libertação que de restrição. Presa em sua adoração em a direção da Palavra de Deus somente, a igreja é livre das ditaduras do homem, quer sejam contrários à Palavra de Deus ou simplesmente adicionais a ela. O jugo da imposição é abandonado!

A prática das igrejas reformadas em 1643

Na medida que a Confissão se refere a cantar os Salmos em 21.5, isso é prescritivo do que é requerido ou descritivo do que era praticado na época? Se for o primeiro caso, como devemos entender o que a Assembleia quis dizer por “Salmos”?

Nick Needham mostrou que o conhecimento da Assembleia de “salmos” era maior do que os Salmos de Davi. Outras músicas eram comumente aceitas na adoração da igreja reformada, apesar dos Salmos serem a dieta principal. Ele encontra o suporte em Richard Baxter, Zwinglio e Bullinger, Calvino e as igrejas reformadas francesas, alemãs e holandesas. Os protestantes ingleses em Genebra não eram opositores a cantar outras passagens da Escritura na adoração, ao passo que o saltério padrão inglês, composto por Sternhold e Hopkins, continha um considerável número de músicas não-davídicas e era definitivo até 1696. Enquanto isso, na Escócia, cantar exclusivamente os salmos era a regra, antes da Assembleia dos escoceses ter usado o Gloria patri.

O resultado de tudo isso é que a declaração clássica do princípio regulador na Confissão de Westminster não restringe adoração corporativa a cantar os Salmos. Nem era a salmodia exclusiva a prática das igrejas reformadas pela Europa naquele tempo.

Argumentos bíblicos contra a salmodia exclusiva

Então, essa é uma perspectiva histórica. Agora, aqui estão mais dois argumentos bíblicos diretos e teológicos contra a salmodia exclusiva.

O escopo da revelação

Primeiro, os Salmos não refletem explicitamente toda a abrangência da revelação trinitariana: nem a encarnação, vida, ministério, morte e ressurreição, ascensão e estado celeste de Cristo, nem o dom do Espírito para a igreja. É estranho que um princípio que requeira suporte bíblico explícito para práticas de adoração exiga essas práticas para se referir às verdades centrais da revelação bíblica somente implicitamente. Por essa razão, se não outra, os Salmos não podem ser a única dieta para a igreja. Se eles forem, isso truncaria sua adoração e produziria um desequilíbrio em sua teologia.

O que a salmodia exclusiva proíbe e requer

Prosseguindo, se você me permitir uma redução ao absurdo, considere o que salmodia exclusiva proíbe e o que ela requer. Salmodia exclusiva proíbe a igreja de cantar “Jesus, tu és alegria dos corações que amam”, “Quão doce é o nome de Jesus” e “Santo, santo, santo, Deus onipotente”. Entretanto, é explicitamente ordenado cantar: “Ó filha da Babilônia, condenada a ser destruída, benditos seja aquele que retribua a ti com o que fizeste a nós! Bendito seja aquele que tome seus filhos e esmague-os contra a pedra!”, e o Salmo 109.6-20 com seu derramamento de maldições e vitupérios.

Ainda assim, melhor só salmos que só coros

Então, em resumo, argumentaria que igrejas não são exigidas a cantar exclusivamente os Salmos. Entretanto, se é uma escolha entre salmodia exclusiva e coros de adoração contemporânea, salmodia exclusiva é uma opção bem melhor.

A moda de adoração recente tem dado às igrejas evangélicas um conteúdo não balanceado, músicas terríveis e muitas vezes sentimentos errados. A natureza linear da salmodia judaico-cristã e da hinódia tem sido substituída pela repetição cíclica. Em comparação, a despeito de suas alegações insustentáveis, eu preferiria bem mais ter salmodia exclusiva.

 

Tradução: Matheus Fernandes

Revisão: William Teixeira

Original: Does the Regulative Principle Demand Exclusive Psalmody?

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Robert Letham
Autor Robert Letham

Robert Letham é um ministro presbiteriano com 25 anos de experiência pastoral e o diretor de pesquisas e palestrante sênior em teologia...



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